Sobre flores?

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Sobre flores?

Um dia desses quando dava uma passada no comércio vi um garoto com uma rosa vermelha na mão, daqueles embaladas com plástico transparente e um cartãozinho dentro. Aparentava uns 19 ou 20 anos, roupas simples, tênis comum, sem muita moda nem muita preocupação com o que vestia. Ele andava meio preso, notadamente nervoso, concentrado em alguma coisa que ele não parecia controlar.

Levava a rosa com uma mão atrás do corpo, como que escondendo de alguém logo à frente. Olhei mais adiante esperando encontrar a pessoa que ganharia aquela flor, mas não vi ninguém. O estacionamento, fora os carros no entra e sai comum de meio de semana, estava vazio. Ele continuou andando daquele jeito ansioso, passou pelo prédio que era comum ao estacionamento e o comércio, virou a esquina e seguiu. Não vi o fim da história.

… mande flores. Na verdade sempre que não souber o que fazer em relação a uma mulher, mande flores.”

Já ouvi amigos dizendo isso. Vi em filmes, seriados, se não me engano em algum livro também. Parece tão simples assim. No momento que vi o garoto no estacionamento eu lembrei dessa frase. Mas olhei pra cara dele, a mão firme e preocupada na rosa, o suor descendo pelo canto do rosto... Não, não encaixava. Não se tratava apenas de não saber o que fazer em relação a uma mulher e pronto, flores, ponto pra ele. Ele sabia, ele sentia.

Aquela rosa não precisava ser dada com palavras. Era do tipo que você apenas estende a mão sem oi ou qualquer abraço de recepção e entrega. Seu silêncio já diz o que não precisaria ser dito. Nos olhos aquela frase de três palavras ditas em qualquer cartão de namorados. Na boca, um sorriso desajeitado e nada mais.

Pedro Suez - I

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Ontem. Casa, aula, estágio, academia, casa. Era rotina universitária, rotina de construção. Física, mental, social, seguia nesse dia-a-dia. Tinha meu carro, simples mas meu. Fazia o curso que eu queria e o cotidiano caminhava como havia planejado nas épocas frias de cursinho. Tudo tem um preço.


Hoje. Filhos e meiaidade de uma vida comedida. Universidade, alunos, iniciação científica e números. Trabalho, dinheiro, números. Corrida nos fins de semana, peso a mais, a menos... Carro, caminho de volta pra casa. Gostava de andar com os vidros fechados, música e o meu mundo. Não ouvia o que acontecia do lado de fora, barulho de trânsito sempre estressava.


Ao longe vi uma faixa de pedestre, nela um senhor, óculos escuros e bengala branca do tipo guia na mão. Parei aos poucos o carro até chegar à faixa. Ele não saberia quando atravessar. Talvez ouviria um carro parar, ou não. Pediria ajuda a alguém. Mas ele não via. Me coloquei no lugar daquele senhor. O que faço, preciso atravessar e não enxergo. Tenho em mãos uma vara-guia e minha coragem, definitivamente não.


Não vinha nenhum outro carro na pista. Faixas da direita e esquerda livres, eu no meio parado. Fiquei ali. Insight, mil coisas em um segundo na cabeça. Ele esperava paciente, expressão simpática no rosto.


Pedro Suez

Desesperadamente correr II - Ziul Sartre

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Então, uma vez vi aquela meninamulher. Devia ter seus 19 anos. Andava melancolicamente cabisbaixa e levava na colera um Yorkshire Terrier – lembrava muito o meu. - Vinha de frente pra mim, no sentido contrário do calçadão reto de corrida. Tive tempo suficiente de olhar pra ela sem que ela percebesse. Imaginei milhares de motivos para ela estar ali, assim.

No meio de tanta gente estranha. Ela, estranha e linda. Alguma coisa incomodava. Algo que não tinha como eu saber o quê, algo que me intrigava e tornava-a mais linda. Sabe aquela pessoa que dá vontade de parar, sentar e bater um papo sobre a vida? Assim mesmo, inexplicável, uma intimidade que não existia. Nisso, em contraste com a alegria do cachorro, ela seguia sua introspecção.

Quantas vezes eu andava por aí assim! Corria nos meus problemas curtos enquanto o mundo voava na sua realidade. Eu era o ser e o nada. Uma busca constante pela essência que me abandonava. Mas e aí? Eu só queria mais uma vez correr. Como aquela coisa feita mal pensada. Aquele desejo latente impedido pela consciência. Não existia sentido, era só vontade. Sentimento, só correr.

Ela passou por mim, cruzou no sentido oposto e nada mais. O sol laranja-avermelhado daquele horário, vindo quase que horizontalmente me lembrou de respirar. Voltei, mais uma vez de um mundo que não era meu.


Por Ziul Sartre. fevereiro de 2009

Desesperadamente correr I - Ziul Sartre

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.: Notas de Ziul Sartre

Fone de ouvido. Tênis. Chaves. Um pouco de água antes de sair.

Play. Abro a porta, sol, rua, silêncio. Essa é sempre a melhor parte. Não ouvir os carros, os problemas, as pessoas. Silêncio que minha música dita só pra mim. Andar, respirar, seguir um caminho - que a princípio não me leva a lugar algum. Cabelo, roupa, não importa. Só quero correr, tocar naquele horizonte que eu mal posso ver. Ter a sensação de chegar a algum lugar. Desesperadamente correr.

O começo é revelador. Aquela íntima onda de raiva se transforma em força. E o corpo pede mais. Respiração forte, sorriso irônico. Vai, um pouco mais. E o vento forte contra o rosto? Como se quisesse me parar de fazer aquilo. Aos poucos a calma chega, participa do meu corpo junto ao cansaço. A dose diária de serotonina que eu preciso. O meu medicamento à base de fluoxetina. Já ouvi dizer que chocolate e sexo participam no nosso corpo com a mesma propriedade. Bom, talvez. Não vou entrar nesse assunto agora.

Pessoas passam como um vulto entretido no seu caminhar forçado. Obrigados pelo médico? Contrariados pela balança? Estresse? São muitos os motivos estampados nos rostos estranhos do caminho.

Então, uma vez vi aquela meninamulher. Devia ter seus 19 anos. Andava melancolicamente, cabisbaixa e levava na colera um Yorkshire Terrier - que lembrava muito o meu. - Vinha de frente pra mim, no sentido contrário do calçadão reto de caminhada.
Tive tempo suficiente de olhar para ela sem que ela percebesse. Imaginei milhares de motivos para ela estar ali, assim.

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Foto tirada em um restaurante de Brasília.


Créditos ao meu amigo John por indicar o blog.